10 dias de experiência no Ensino Integral de São Paulo

Imagem relacionada

Passei 10 dias em uma Escola que participa do Programa de Ensino Integral (PEI).

Uma experiência intensa que me levou a criar essa página para compartilhar reflexões e opiniões sobre a prática docente, as condições de trabalho e investigar os problemas e buscar soluções.

Agradeço a equipe de gestão e a todos os colegas professores/as que me receberam e me auxiliaram nesses 10 dias. São profissionais que batalham e suam a camisa para fazer uma boa escola.

E essa experiência me mostrou que trata-se de uma ótima ideia que é maltratada pela cúpula da gestão educacional do Estado de São Paulo.

Decidi deixar o programa após apenas 10 dias por ter sido questionado como professor de uma PEI sobre a publicação desta página de estudos e pesquisas. Em particular o texto “A saúde do professor no Programa de Ensino Integral“.

Fui submetido a uma sabatina/inquirimento por representantes da Diretoria de Ensino que alegaram que a publicações de opiniões, que a busca pelo diálogo com a sociedade sobre a escola e a educação oferecida pelo Estado de São Paulo. Nem na rede privada vi o cerceamento da condição de livre pensar e formulação de críticas públicas embasadas na experiência profissional.

Algo que sem dúvida é uma afronta à Lei de Diretrizes e Bases da Educação que estabelece que a escola será baseada nos princípios:

“Art. 3º  (…)
II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber;
III – pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas;
IV – respeito à liberdade e apreço à tolerância;” (LDB, Lei Nº 9.394/1996)

E também tratou-se de um certo cerceamento aos direitos fundamentais estabelecidos por nossa Constituição, tal como definido no Artigo 5o.:

IX –  é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;  (CF, 1988)

O que é mais sinistro no fato é que jamais divulguei o nome da escola ou de qualquer pessoa nos artigos que publiquei nesta página. Um cuidado para não estigmatizar ninguém. Busquei apenas expor fatos relatados, garantindo o anonimato das fontes para preservar a unidade escolar de qualquer juízo.

Me senti ameaçado, pois foi afirmado que eu estava agindo contra o Estatuto do Servidor Público, na medida em que eu, ao publicar minhas reflexões sobre o tema “denegria” a unidade escolar. Jamais usaria esse termo por considerá-lo racista, mas foi usado para caracterizar minha reflexão/pensamento como cientista social e educador.

Percebi que é impossível exercer o direito de liberdade de consciência e liberdade de expressão diante de tal pressão. Não é um ambiente de autonomia e liberdade intelectual. Não é um espaço para crítica e autocrítica, para investigação e descoberta.

Por isso pedi para encerrar minha designação e voltar para minha escola sede. Escrevi à direção da Escola uma carta que compartilho:

“Prezada diretora

Refletindo um pouco sobre a experiência destes dez dias lecionando na PEI e as críticas realizadas pelo meu esforço de sistematizar uma reflexão sobre os problemas de minha experiência no ambiente de trabalho e as características particulares desenvolvidas pelo projeto pedagógico sem muito espaço para autonomia e iniciativas criativas de desenvolvimento crítico e de livre pensar, considero que não seja meu perfil a escola de tempo integral.

Amanhã irei para escola deixar minha carta de encerramento de minha designação e comunicarei minha escola sede do meu retorno.

Deixarei com o coordenador o material da disciplina (diários e avaliações).

Quero registrar que não tenho nenhum problema particular com a senhora a não ser respeito e estima, pois registro que seu trabalho é de uma escola participativa e aberta ao diálogo.

Mas minha crítica e frustração é com SEE/SP que faz com que um projeto com um imenso potencial e que por imensos problemas de pressão profissional e avaliações pensadas sobre os professores dificulta o desenvolvimento do potencial dos docentes em ajudarem os alunos a melhorarem e renderem.

O estado emocional e de saúde de meus colegas indicam que é preciso refletir e pensar sobre o problema coletivamente e sem nenhum receio ou limitação.

Peço desculpas pois sei que causará inconvenientes aos meus colegas professores, para coordenação pedagógica e para a própria gestão.

Novamente obrigado pela oportunidade desta experiência.

Nessa experiência com meus colegas de docência pude observar três questões:

  • Uma ausência de felicidade na prática docente, como se lecionar submetido aos processos avaliativos da PEI fosse um fardo pesado. Para além de um stress maior por conta das restrições da legislação do programa na questão de falta dos professores (inclusive por faltas médicas).
  • Uma ausência de recursos materiais para escola, onde qualquer coisa precisaria ser paga pelo bolso dos docentes (cópias de provas, por exemplo).
  • Todo questionamento, os docentes mais experientes sempre faziam a mesma observação “não adianta reclamar ou falar, o projeto é assim, melhor ficar quieto para conseguir ficar aqui”.

Evidentemente não considerei apropriado minha continuidade no ambiente do projeto.

Escola é liberdade, pesquisa, busca pelo conhecimento, aprendizado, crítica e autocrítica. Escola é pensamento livre e livre expressão das ideias.

Mas decidi que vou seguir a investigação sobre as condições de trabalho, de saúde, aprendizado dos docentes nas escolas PEI. Quero também investigar a satisfação pessoal dos professores e sua felicidade.

As escolas parte do Programa de Ensino Integral de SP precisam ser estudadas, analisadas e principalmente avaliadas sobre critérios que integrem as condições de liberdade de cátedra (autonomia pedagógica) visando o pleno de desenvolvimento de todas as competências e habilidades e não a reprodução do sistema apostilado do Governo do Estado, material limitado e que anula a capacidade autoral criativa dos professores.

É preciso de uma escola de tempo integral não submetida a pressões que prejudicam a autonomia e o desenvolvimento da prática pedagógica dos professores. É preciso de uma escola que não faça mal a saúde dos docentes.

A busca por respostas e a elaboração de ideias sobre o tema vão ter nesse espaço virtual uma tribuna. E todos os interessados em escrever relatos e ideias terão nesse aqui espaço para divulgar suas experiências.

Anúncios

A saúde do professor no Programa de Ensino Integral

mao_quadro

Um dos aspectos necessários para uma investigação profunda e adequada visando a melhora das condições de ensino nas Escolas que participam do Programa de Ensino Integral é a questão da saúde.

Sem dúvida a saúde em qualquer profissão a saúde dos profissionais chave deve ser um fator a ser investigado.

Há vários interessantes estudos e pesquisas sobre o tema:

Mas até o momento, nenhuma investigação foi realiza tendo como foco as condições de saúde dos docentes nas experiências de Escola Integral. Uma lacuna muito importante.

A principal atração das escolas com Ensino de Tempo Integral é o adicional de 75% nos salários para uma jornada de 40 horas/aula. Junta-se a isso o fato do professor não ter de dividir seu trabalho em unidades escolares diferentes.

Isso faz a renda de um docente ter um significativo avanço. Ainda não recebi meu primeiro salário, mas professores que tem tempo similar na rede estadual afirmam que salário fica entorno de R$ 4000,00.

Uma das mais importantes exigências da Escola de Tempo Integral não pode haver faltas. Entre os critérios de avaliação para manutenção da designação dos professores está não faltar. Cada falta derruba a pontuação da avaliação dos docentes.

Em escola de tempo integral não há “aula vaga”. Nem há professor eventual (ou módulos, como são conhecidos na rede municipal de São Paulo). Quando um professor, por qualquer razão ou motivo se ausenta, os professores que estão disponíveis na unidade escola o substituem durante as chamadas “horas de estudo”. Na verdade trata-se de  hora de trabalho extra-classe (correção de trabalho, acertos de diários…). Quando um professor falta numa escola de tempo integral gera um enorme e exaustivo distúrbio no trabalho dos demais colegas.

HISTÓRIAS DA SAÚDE DOS PROFESSORES EM TEMPO INTEGRAL

Ouvir os relatos é algo duro. Não existem histórias alegres. Apenas relatos tensos. E talvez isso seja um exemplo de investigação necessária para correção de rumos e ajustes profundos no modelo de “produtividade” e “eficiência” do projeto. Tenho certeza que mesmo a cúpula da administração estadual, responsável diretamente por toda a normatização do projeto, tem ciência e compreensão da questão da saúde.

De modo algum digo isso para isentar  a gestão do governador Marcio França e do atual secretário estadual de educação João Cury Neto. Eles são responsáveis, pois são responsáveis pela política educacional no Estado. Mas tenho a impressão que diante do tamanho da máquina burocrática estadual, simplesmente não tem ideia dos profundos equívocos e erros dentro da condução da política de pessoal do projeto.

Trata-se de uma lógica que considera que o aumento da remuneração dos professores nessas escolas deve exigir tudo do professor, inclusive sua saúde. Uma lógica que não se justifica e nem se prova eficiente na gestão pública e muito menos na condução de um projeto pedagógico para as escolas tendo como ponto de partida a qualidade de vida dos docentes o desenvolvimento de iniciativas e trabalhos que melhorem o rendimento escolar e o aprendizado dos alunos.

Ouvi um relato de uma professora que  sofreu um acidente numa escola fraturando o pé. Um acidente de trabalho. O médico exigiu um período de afastamento, maior que o limite do projeto. Essa professora teve de procurar 5 outros médicos até encontrar um que assinasse uma alta para ela. A gestão buscou ajudar ela de todas as maneiras, mas não conseguiu mais que o limite. E ela voltou a trabalhar antes do tempo adequado, sendo obrigada a trabalhar com um “robofoot” (bota que substitui o gesso).

Há muitos outros casos similares.  Professores que vão lecionar em crises de bursite graves, mas que não faltam de modo algum para não serem prejudicados nas avaliações. Professores que adiam cirurgias para o período de férias. Exemplos do que não deve ser feito.

Penso em buscar o registro destes relatos para conduzir um estudo e uma análise sobre o tema. Talvez associar pesquisadores da área da saúde para formulação de um questionário (survey) para coletar dados apenas com professores de escolas do programa de ensino integral.